A reação da multidão
nem sempre é aquilo que esperamos ver, contudo nada disso pegou Jesus de
surpresa. Ainda que aos nossos olhos corramos atrás de grandes resultados,
Jesus não está à procura disso. O que de fato interessa a Ele é cumprir a
vontade soberana do Pai (Jo 6. 38-40) e Ele tem a plena convicção de que
aqueles que o Pai lhe deu O seguirão (Jo 6. 44). Estavam presentes agora os
doze. Todos se retiraram, cada um seguiu seu caminho de acordo com suas
conveniências e desejos. Não havia no coração deles uma percepção clara e
contundente sobre Jesus e isso é comprovado na atitude que eles tomam. Este
acontecimento nos ensina que “multidão” não é necessariamente sinônimo de
sucesso, ainda que nos nossos dias o sucesso da carreira de alguém seja medido
por resultados como este ou outros parecidos. Haveria Jesus fracassado em seu
discurso? Absolutamente não! A vontade soberana do Pai estava se cumprindo
naquele momento.
Agora, ele olha para os doze e pergunta: “Porventura,
quereis vós outros retirar-vos?”, esse é o tipo de pergunta que Jesus faz e já
tem a plena convicção da resposta. Ele
sabia que inclusive Judas, ainda que fosse o traidor, estava presente ali para
cumprir a vontade do Pai. A resposta que vem dos lábios de Pedro revela o que
está presente no coração dos outros (exceto Judas), ele assume a liderança e
afirma: “Senhor, para quem iremos?”(Jo 6. 68). A questão presente aqui não é um
local geográfico, porém alguém específico. Para quem iremos demonstra um
compromisso firmado, uma aliança com alguém, uma certeza de que se está na
companhia da pessoa certa. Esse não é o tipo de relacionamento vivenciado
superficialmente, essa não é uma relação de coleguismo, ou apenas uma vivencia
de trabalho. O fato disso é notado em três afirmações: Primeiro Pedro afirma que “Tu tens as palavras da vida eterna”,
ora, a vida eterna, segundo as palavras ditas por Jesus, tinha haver com uma
comunhão íntima com Ele (Jo 6. 50-58) e isto estava revelado ao coração
daqueles que o Pai havia dado ao Filho. Em segundo
lugar, Pedro afirma “e nós temos crido”. Crença é algo que transforma
completamente o estilo de vida de alguém. As pessoas creem, por exemplo, que
para ser feliz é necessário ter boas condições financeiras e alguém que o ame
loucamente... Bom, crenças desse tipo são plantadas, crescem no coração como
verdade e muitos se entregam e até se matam por isso. O crer que os discípulos
professaram passa por um crivo muito mais profundo. O “crido” de Pedro passa
por uma avaliação rica e criteriosa da verdade, algo profundo e não
superficial. Era o casamento de todas as promessas do Antigo Testamento na
pessoa do Jesus que estava ali com eles na caminhada. Em terceiro e último lugar, Pedro diz: “e conhecido”. As palavras são
muito bem selecionadas e direcionadas pelo Espírito Santo que inspirou a
escrita das Sagradas Escrituras, pois Ele se utiliza de uma palavra que não
significa um conhecimento árido sobre algo, todavia um relacionamento íntimo
com alguém. Havia entre eles relacionamento íntimo, sincero, verdadeiro. Eles
compartilhavam uma caminhada que era muito mais que um treinamento, era vida,
dia a dia, partilhar o pão, as lutas. Diferentemente dos nossos dias, onde as
relações são extremamente consumistas, onde me aproximo apenas de quem pode
contribuir para que eu seja, me sinta,... Na verdade, nós só temos tempo pra
relacionamentos assim e esse não era o caso dos discípulos, eles entregaram a
vida a Crsito.
A grande questão que permanece é: o que nos leva a
caminhar com Cristo? Temos nos alimentado dEle e cremos que nEle se encontram
as palavras da vida eterna? Temos de fato crido nEle, confiado, colocado nossa
vida em total dependência? E o que falar do nosso relacionamento? Será que
existe mesmo um caminho diário, uma relação viva, ou são encontros frios e
esporádicos? Somos chamados a uma reflexão profunda sobre isto. Que Deus
conduza nosso coração à verdade e nos traga ao real caminho do discipulado.
Leonardo
Cavalcante


