quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Redescobrindo a oração

“pedis e não recebeis, porque pedis mal, para esbanjardes em vossos prazeres”
Tiago 4. 3

É incrível o número de cristãos “decepcionados com Deus”. Lendo um pouco sobre o assunto e até ouvindo alguns testemunhos, me apercebo do mal de tantos ensinamentos corrompidos presentes no meio evangélico. Poderíamos citar o uso inapropriado do “óleo”, a reentrada de ritos e instrumentos do Antigo Testamento que em Cristo perderam sua significância, as “unções” recebidas e anunciadas, o erro no tocante aos dízimos e ofertas, os ritos absorvidos de seitas religiosas como o espiritismo e candomblé em alguns círculos ditos cristãos. Um desses temas que tem circulado muito por meio de e-mail’s, em programas de rádio, TV, em vários sites da Internet e que tem sido alvo de uma tremenda incoerência Bíblica é o da oração.

Antes de tudo, devemos destacar que a oração é um meio de relacionamento com o Pai, é adentrar pelo novo e vivo caminho com ousadia e falar de forma pessoal e íntima com Aquele que é o Criador Soberano, mas que, ao mesmo tempo, sendo quem é, tem prazer num “bate papo” gostoso com Seus filhos. Creio que existe hoje no mercado, uma quantidade significante de material embasado na Palavra, que fala muito bem sobre esse assunto. Poderíamos destacar também os Salmos como um local de relacionamento profundo com o Pai. Por ser assim, ela não é restrita há um número limitado de pessoas, mesmo que, haja grupos de oração que constantemente estejam intercedendo por causas diversas nas igrejas. A grande questão que, por alguns anos, foi erguida por grupos neopentecostais e que insiste em penetrar de forma sorrateira em outros meios cristãos, é o “destronamento de Deus” e o “entronizar do homem” através das “rezas de poder”, a imposição ao “servo Jesus” de que ele deve agir dessa ou daquela forma em favor “de” e a exclusão de um relacionamento de intimidade com Deus para um relacionamento de consumo. Vez por outra, recebemos e-mail’s, vemos e ouvimos através dos meios de comunicação coisas do tipo: “Traga uma foto, uma peça de roupa...”; “Repita essa oração com fé e a bênção virá”; “Exija de Deus, afinal de contas, você é filho do rei”; “O diabo tem roubado sua fé! Por isso que você não recebe o que quer”; “Não ore em voz alta porque o diabo rouba suas orações”; “Eu ordeno”; “Eu não aceito”; “Eu repreendo”. Absurdos como estes têm criado feridas profundas em muitos crentes. Não são poucos os que se ressentem com Deus por não verem essas “orações” respondidas, é grande a quantidade dos que têm se escandalizado e até se afastado de muitas igrejas por coisas desse tipo e o motivo que elas encontram para esse afastamento é: a “minha vontade” não foi feita, “fui iludido por uma propaganda enganosa”. Todavia, como Deus pode satisfazer tantos desejos limitados e manchados pelo pecado? O absurdo tem chegado ao ponto de pessoas estarem fazendo “correntes de oração” via e-mail do tipo “repita e passe adiante e você verá Deus agir em sua vida”, sem entender que o verdadeiro sentido da oração leva o homem a se prostrar em adoração Lhe dando a glória que é devida. Usurpamos a Glória divina quando nossas listas de supermercado e nosso insignificante reino nos fazem orar. A que estamos reduzindo esse caminho de relacionamento com Deus?! Onde é que está a base para esse engano esdrúxulo?! O que fazer em meio a tudo isso? Como evitar que heresias assim se infiltrem de forma danosa e perniciosa em nosso meio? Gostaria de pensar em três aspectos simples, mas que merecem muita atenção.

Em primeiro lugar, o que deve haver é um retorno sério a Palavra de Deus e quando falo em retorno sério, falo de um retorno onde se analisa texto e contexto e não apenas versículos isolados que sirvam como base para aquilo que quero. Com isso, não estamos excluindo o caráter relacional com a Palavra de Deus. Ler a Palavra é antes de tudo, um meio de relacionamento. É ouvir a voz de Deus. Através da Palavra conhecemos o Pai e suas promessas. A Palavra disciplina nosso coração a confiar nEle e não em nosso enganoso coração, ou, em circunstâncias mutáveis. A Palavra é vida, alimento para nossa alma. Bem aventurado o homem que confia no Senhor, que ouve Sua Palavra, que espera em Suas promessas. Neste relacionamento, a oração é a nossa resposta à Palavra que sai da boca de Deus. Como diria Eugene Peterson, “ela nunca deve ser a primeira fala. Deus fala e nós respondemos”. Ricardo Barbosa, pastor presbiteriano, afirma: “Quando ouvimos a Deus, quando permitimos que Ele fale primeiro, nossa oração se transforma numa simples e honesta resposta a Ele”.

Em segundo lugar, perceber que “eu” não sou o senhor do universo e sim Deus. Quando observamos as frases citadas acima, vemos a quantidade de “eu’s”, “minha’s” e coisas do tipo. É sempre “eu” que estou no centro, que mando, que quero, que determino, são meus desejos e minhas vontades. Onde está Deus, Sua vontade, Sua glória? Parece que Ele se encontra renegado apenas ao plano do serviço! Segundo Ricardo Barbosa, no filme “Terra de Sombras”, onde é retratada a vida de C. S. Lewis, é descrito um fato marcante. Joy Davidson, esposa de Lewis, havia descoberto câncer em uma de suas pernas e após um período de tratamento radioterápico, Lewis estava se preparando para buscá-la no hospital quando encontra o pastor de sua igreja, e o diálogo prossegue assim: “Imagino que você está muito contente, afinal, Deus ouviu suas orações e sua esposa está bem melhor”. C. S. Lewis respondeu: “De fato orei todas as noites. No entanto não orei por ela, orei por mim, porque minhas orações não mudam a Deus, mudam a mim mesmo”.

Terceiro, compreender através de um relacionamento íntimo e sincero a vontade de Deus, assim como, Habacuque, Paulo e aquela tão grande nuvem de testemunhas descrita em Hebreus 11 compreenderam. E o que falar de Jesus, nosso maior exemplo? Ele, quando orou pedindo para que Deus passasse dEle o cálice da ira divina, não concluiu dizendo: “e é isso que eu quero”, mas, que em tudo isso fosse feita a vontade do Pai. Nesta relação íntima com o Pai, descobriremos de fato que “não sabemos orar” e quando nos apercebermos dessa verdade rogaremos ao Pai, ensina-nos a orar, como os primeiros discípulos pediram a Cristo. Então, será para nós, abençoadora a voz de Jesus nos ensinando este caminho: “Faça-se a Tua vontade, assim na terra como no céu”. Esta é a prova contundente do desprendimento da nossa vontade e o desejo sincero de que a vontade de Deus molde o nosso caráter. Outro ponto é que, neste relacionamento, Deus nos faz perceber o nosso pecado como impedimento a conhecermos o que realmente necessitamos. A confissão necessária diante desse fato, é que, não possuímos todas as informações e conhecimento que nos levem a afirmar que este ou aquele é o melhor caminho. Somos como neblina, diz Tiago, não sabemos o que nos espera amanhã, ao invés de determinar nossa vontade, deveríamos orar assim: “Se o Senhor quiser, não só viveremos, como também faremos isto ou aquilo”.

As Escrituras também nos esclarecem e não descartam o caráter intercessório da oração. Porém, quando ela nos chama a colocarmos diante de Deus nossa vida, nossa família, nossos governantes, nossos irmãos na fé, em momento algum ela nos ensina que Deus é pego de surpresa, que Ele aplica seu plano B por conta de uma oração que fizemos, ou coisa do tipo. A oração, quando pensamos em intercessão, mesmo sendo um dos meios dados por Deus pelo qual Ele tem prazer em nos abençoar, deve nos levar a buscar qual é a Sua vontade e conformar nosso coração a essa vontade que é boa, agradável e perfeita. João Calvino afirmou que “o guardador e benfeitor de Israel está de braços cruzados para abençoar seu povo, porque este se encontra de lábios fechados”. A imagem é de uma prateleira com “objetos” que são da vontade de Deus nos presentear, entretanto, só serão palpáveis a nós se os pedirmos. E como pedi-los se não sabemos o que se encontra nas tais prateleiras? Daí o reformador de Genebra prosseguir afirmando que “se você se aproxima de Deus sem estar munido de Suas promessas, você se aproxima de forma ilegítima”. É só através da Palavra de Deus que conheceremos de forma plena Sua vontade, é conhecendo a pessoa de Deus que faremos uso correto desse meio tão sublime, essencial e poderoso de relacionamento que é a oração. Deus nos abençoe e guarde nosso coração.

Leonardo Cavalcante    



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