quarta-feira, 6 de abril de 2011

O coração idólatra


Um dos grandes, senão o maior, obstáculos na nossa caminhada da fé é o nosso coração idólatra. O coração humano é desesperadamente corrupto, os seus caminhos visam tão somente à busca por sua glória, prazer, satisfação e tudo aquilo que de alguma forma o estabeleça como um deus nesse mundo. Talvez você chegue a pensar que estou pegando pesado com isso, mas creia, não estou!

            Na queda (Gn. 3), o desejo de ser “deus” tomou conta do coração da mulher e por conseguinte de toda humanidade. Todo ser humano nasce com um desejo inato centrado no seu “eu”. Quando criança esses desejos são manifestados de formas aparentemente bobas, alguns até chegam achar engraçadinho o egoísmo infantil, contudo com o passar dos anos tudo isso vai ganhando novos contornos, aquilo que era “tão inocente” ganha aspectos mais elaborados.

            A idolatria do “eu”, usando as palavras de Brian Walsh e Richard Middleton no livro A Visão Transformadora, “é, essencialmente, uma declaração de autonomia e independência de nosso Criador, nossa rejeição de seu reino legítimo. A idolatria é retratada, na Bíblia, não meramente como um pecado entre muitos, mas como a epítome do pecado. Ela é o ato central desobediência que interrompe o governo de Deus sobre a vida humana”.

            Ainda que por vezes, muitos cheguem a minimizar o significado de idolatria a algumas religiões, o seu conteúdo central encontra-se vivo e pulsante no coração de todo homem e mulher. Entretanto, já que falei de religião, permita-me citar um exemplo que ouvi. Quando alguém se prostra perante um santo católico romano, como santo Expedito, o santo das causas impossíveis, como diria um professor, eles nem conhecem a história desse homem nem tampouco estão interessados nela, mas o que eles querem é a solução de suas causas impossíveis. Percebe a o ponto da questão? No final das contas é sempre o “eu” que precisa ser suprido. Desta forma estabelecemos ídolos menores como santos, empresas, pessoas, bens, segurança, estabilidade, políticos e políticas públicas, etc., que alimentam o ídolo maior que é o “eu” e nesse processo, lamentavelmente, o próprio Deus acaba se tornando um ídolo. Passamos de servos para pessoas que são servidas por Ele e se Ele não me serve como quero, Ele não serve para mim. Passamos a viver então uma vida apática, triste e altamente fria por que ao invés de relacionamento, adoração e louvor o que existe de fato é um desejo de que Deus me supra como sempre espero e quero. Essa vida egocêntrica vivida com Deus acaba se refletindo em minhas relações interpessoais de modo que, o meu cônjuge, meus filhos, meus pais, meus amigos, meu emprego, meus bens, todos devem me suprir e promover em meio a essa vida onde eu consumo tudo e todos com o firme propósito de alimentar meu ídolo maior que sou eu mesmo.

            Recordo-me das palavras de Jesus (Lc 9.23) quando diz aos que desejam acompanhá-Lo que todos os dias devem tomar sua cruz e segui-Lo. O que significa tomar a cruz senão a clara proposta de crucificação do “eu”. Usando as palavras do Rev. Sérgio Victalino no domingo passado (03/04/2011) quando questionou: “Onde está a vontade de um morto? Onde está a vontade de alguém que foi crucificado com Cristo e ressuscitou para uma nova vida?” Nesta nova vida Deus é de fato e de verdade o único Deus santo, digno de ser honrado e adorado. Nela Sua palavra não é questionada, mas crida e obedecida, nela o desejo de justiça não se esconde por trás de ideais e idealistas idólatras, contudo é vivenciado na prática diária de alguém que vive a vida do Reino e busca o estabelecimento desse Reino bendito em todos os lugares onde Deus o tem colocado. Nesta nova vida o discipulado não é um mero assessório, todavia fazer discípulos de Cristo se torna a expressão de um propósito soberano para vida daqueles que agora vivem pela fé no Filho de Deus. Que Deus nos abençoe!


Leonardo Cavalcante